quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O Economato: Relatório e Contas, época 15/16 (parte I: o trambolhão)

Consultem as contas AQUI. Irão adorar a capa. O resto? Nem por isso...

Que trambolhão, caramba! A existência do mesmo não surpreende. Só mesmo o tamanho do número consolidado, bem mais vermelho do que há três meses, é que me deixa muito mal disposto: -58.410.836,00€. Se alguém se incomoda com a cor, só tem é de colocar mãos à obra para a reverter! Se este valor estivesse previsto, pelo menos cumpria-se o objectivo. No entanto, estava previsto um lucro de cerca de 1.800.000,00€ para a SAD, a principal contribuidora para este desvio colossal! Também por isso, há que estudar dois paradigmas distintos: os números e as atitudes. Vamos aos números consolidados.

O Resultado Líquido deste exercício já foi referido. O Futebol Clube do Porto dá um conjunto de justificações para que este tenha acontecido. Em primeiro lugar, a falta de registo de mais-valias até 30 de Junho, que também não se verificaram posteriormente. André Silva, Danilo Pereira e Héctor Herrera poderia ter valido 95.000.000,00€ segundo Fernando Gomes. Evidentemente que não posso acreditar nas suas palavras. Considerando que Danilo Pereira tem uma cláusula de 40.000.000,00€ e André Silva tinha, à data, 25.000.000,00€ de cláusula, não sendo batidas, Héctor Herrera poderia ser vendido por mais de 30.000.000,00€. Não é possível conceber a ideia de que o Futebol Clube do Porto deitou este negócio fora, apostando na manutenção do mexicano para a próxima temporada. Uma decisão, do ponto de vista financeiro, deplorável. Por outro lado, mesmo tendo em conta a desculpa esfarrapada de aposta na temporada 2016/17, a SAD do Futebol Clube do Porto sempre assentou o seu modelo de operar numa despesa muito superior à receita, confiando nas mais-valias, que obviamente enfraquecem o plantel para compensar o desequilibro que esta própria criava de propósito, e ter a oportunidade de voltar a reforçar com o restante. Rasgar essa fórmula no momento da sua implementação é um sinal de desnorte. 

Do lado da receita operacional, o Futebol Clube do Porto acaba por executar valores interessantes. Não sendo de elogiar o desvio orçamental na ordem dos 10.000.000,00€ o simples facto de não poder lançar na época de 2015/16 o prémio de entrada na Liga dos Campeões de 12.000.000,00€ só por si justificaria tal desvio. O que não é possível é sistematicamente lançar essa receita no orçamento, pois depende demasiado dos resultados competitivos, atentando contra o princípio da prudência contabilística.

Mas é na a despesa que se demonstra novamente o maior descontrolo. A SAD do Futebol Clube do Porto sempre assentou o seu modelo de operar numa despesa bem superior à receita, compensando da forma que já descrevi. Especialmente por esse facto, a gestão da SAD deverá ter especial cuidado com esta rubrica, a fim de poder cobrir o buraco no fim de contas. Ora, o que registamos é precisamente o contrário. O Futebol Clube do Porto admite, em apenas duas temporadas, um aumento em cerca de 26.000.000,00€ de custos com pessoal (de quase 49M€ para perto de 76M€). Mas só agora é que se aperceberam desse facto? Os responsáveis do Futebol não falam com o Departamento de Planeamento Financeiro e Controlo de Gestão a perguntar se é possível fazer este gasto? Se existe orçamento para tal? Ou só no fim é que se leva as mãos à cabeça e que afinal não há dinheiro? Esta derrapagem não pode ser justificada só por indemnizações! É que o descalabro não se fica por aqui, dado que a própria rubrica de Fornecimentos e Serviços Externos volta a engordar face a anos anteriores e ficar acima do orçamentado. 


Os últimos preparativos antes do "show".

Objectivamente, parece não haver elogio possível para estas contas. No entanto, Fernando Gomes delineou um conjunto de objectivos para inverter o rumo: diminuir em três anos a folha salarial em 20.000.000,00€ e a possibilidade de reestruturar o passivo, que disparou em 73M€, com 51M€ correntes. Pois esta declaração traz-me para o segundo paradigma desta análise.

O mais interessante no meio deste desastre financeiro é mesmo a atitude do Futebol Clube do Porto e dos seus responsáveis. Uma declaração sem um pingo de vergonha, ora do Presidente do Conselho de Administração da SAD, ora do seu Administrador Financeiro, que assim se demonstram como responsáveis e coniventes com cada número. Uma reacção parecida com a de quando um prato que cai ao chão e parte-se: "olha, aconteceu... agora paciência". Se o comunicado à CMVM deve ser apenas baseado em números e com o foco total em informação, a forma como as justificações surgem no site do Futebol Clube do Porto são de quem não tinha conhecimento destes números e atira uns palpites genéricos sobre como os reverter, que, em abono da verdade, não são mais do que areia para os olhos de Portistas e da UEFA. Estes últimos certamente não irão na cantiga e quererão menos paleio e mais acção, já que estarão armados de sanções para aplicar, se bem entenderem. Não nos enganemos: têm justificação para tal! Já os Portistas são forçados a acreditar que as mesmas pessoas que assinaram Maxi Pereira ou Iker Casillas com contratos chorudos e de longo-prazo irão diminuir a massa salarial em cerca de 20.000.000,00€ nos próximos anos. Por favor, não brinquem connosco!

A aprovação das contas e do próximo orçamento em Assembleia-geral é um acto praticamente garantido, principalmente por aqueles que aparecem liderados por um conjunto de pessoas defensoras dos actuais interesses e que nem sequer deram uma vista de olhos ao documento. A esses chamo de "Portistas do Kool-Aid", um conceito que tentarei desenvolver em breve. Em sede própria, irei votar contra estas contas, num sinal de desaprovação da actual política financeira da SAD. Qualquer Contabilista Certificado teria vergonha deste resultado, da forma se lá chegou apresentado e já se tinha retirado. Acrescenta-se assim mais uma prova à teoria já existente: o Futebol Clube do Porto está entregue a um bando sem qualquer tipo de vergonha, carregado de incompetentes e minado por comissionistas. Não contem comigo para beber o "Kool-Aid" e ser conivente com o estado actual, pois os responsáveis do Futebol Clube do Porto acham que ainda há espaço para recuar um passo, quando já chegámos ao abismo. 


Sim, isto tem tudo bom aspecto, mas não sei quem vai pagar...

Fernando Gomes, ganhe vergonha e demita-se!

A parte II terá como foco um conjunto de pontos de análise mais minuciosa, como alterações de passes de jogadores, descrição de comissões e dívidas ou antecipações de receitas, bem como um ligeiro toque sobre o que poderá vir da UEFA.


Promova o debate. Comente e deixe a sua opinião.

Um abraço.

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