quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma tempestade (quase) perfeita

Actual? Não no Futebol....

Hoje é dia de aniversário. Por isso...  Parabéns Futebol Clube do Porto. 

Em dia de aniversário, uma reflexão, em vez de uma celebração. Porque o slogan carrega uma enorme história, mas demonstra ser cada vez menos actual. Tempos difíceis, aqueles que vivemos. Para qualquer Portista, ser atacado de todas as direcções poderá não ser novidade. Sempre foi hábito de boa parte da imprensa, cada vez mais influenciada por interesses da capital. A isto acresce-se o apito, que perdeu toda a vergonha de, jogo a jogo, favorecer quem sabe que, por muita conversa, publicidade ou basófia, não poderá garantir o sucesso apenas com o "jogo jogado", e prejudicar em todo o campo o Futebol Clube do Porto.

Mesmo assim, o Futebol Clube do Porto sempre soube ter a casa arrumada. Ora, o declínio do Futebol Clube do Porto começa por isso mesmo. Não ter a casa arrumada. Por não ter uma direcção (ou administração) que fala em uníssono. Por não fazer crescer a já ampla vitrine de troféus do Museu. Pela comunicação antiquada e praticamente inexistente. Por deixar que a crescente contestação flua por tudo o que é espaço de comentário sem resposta. Por admitir que bate no fundo, apenas para escavar um pouco mais. Por não se dotar de atributos capazes de fazer elevar novamente o seu emblema. Por não conseguir garantir contas em ordem. Por sistematicamente cometermos todos estes erros, e até repeti-los. Vamos passar por tudo, ponto a ponto.

Não é possível afirmar que o Futebol Clube do Porto tenha a casa arrumada. Tanto a SAD como o Clube renovaram as suas estruturas em 2016 para longos mandatos, mas um os elementos mais importantes já bateu com a porta. No momento em que o número de Vice-Presidentes é reduzido, e poucos meses depois da sua ascensão a Administrador, Antero Henrique pediu a demissão no primeiro de Setembro, depois do fecho do mercado de transferências. O Clube alegou problemas pessoais. As crónicas apontam para outros motivos, como a discordância em matéria de treinadores e até jogadores. Paulo Fonseca e Julen Lopetegui não foram escolhas suas, mas também terá de carregar responsabilidades por elas. Nuno Espírito Santo terá eventualmente sido a gota de água, com a alegada influência de Jorge Mendes nesta escolha ainda mais vincada. Se Antero Henrique ainda discutia com Jorge Nuno Pinto da Costa sobre todas as matérias, Luís Gonçalves já foi descrito por terceiros como um verdadeiro "yes-man". Ninguém precisa deste tipo de braço direito. A sua grande especialidade (contratações) ainda está por provar. A seu tempo.


Com, ou sem problemas pessoais, AH marcou presença no Estádio do Dragão para o derby da Invicta.

Mesmo assim, o Futebol Clube do Porto avança, sem um troféu erguido desde 10 de Agosto de 2013. Até lá, os adeptos do Futebol Clube do Porto foram habituados a sucesso constante e praticamente consecutivo. O actual jejum de 1146 dias irá certamente prolongar-se pelo menos por mais 122 dias, altura da final da Taça de Liga, em 2017. Para dizer que ganhámos alguma coisa, creio que já servia! Este jejum poderia ter sido interrompido por José Peseiro ao dia 1016, mas o esforço de André Silva não chegou para evitar o desempate por grandes penalidades e a Taça de Portugal perdeu-se para o SC Braga.


O cumprimento existiu. Mas aquele viranço repentino de cabeça ainda está para ter uma justificação.

Mesmo perante o insucesso, vemos outros exemplos de que a comunicação pode ser uma arma que atenua até o mais desastrado dos resultados. Quem diria que, depois de duas derrotas fora de portas, a confiança numa equipa que não é campeã desde o início do milénio não estremeça sequer um milímetro, e até sai reforçada? Se o futebol praticado certamente ajuda, os canais de comunicação agressivos e reforçados motivam qualquer adepto, como abafa qualquer contestatário. Ora compare-se esse exemplo com o Futebol Clube do Porto. Se o apito foi novamente protagonista em Tondela, entre mais de 1100 comentários encontra uma vasta maioria de palpites que apontam sempre para a fraca qualidade de futebol aplicado. Mas se quiser testar o cenário, não é difícil. Publique um educado e equilibrado comentário de contestação na página do Facebook do Futebol Clube do Porto e nesse outro clube. E veja os resultados. 



Reacções normais. Piorámos o resultado do ano passado fora de portas. Mas, pelo menos, não embarcámos em mais uma derrota frente ao Tondela. A moeda mostra a sua dupla face, mas não estamos obrigados a ter de apreciar qualquer uma delas. Com efeito, nenhuma é apreciável. Desde quando é que perder pontos com o Tondela, e já experimentámos os três resultados, é minimamente aceitável? Ao analisar as três partidas, onde é que o Futebol Clube do Porto foi capaz de produzir futebol que justificasse um aplauso? Se o fundo foi alcançado a 04 de Abril de 2016, o Futebol Clube do Porto declarou aí o início da sua "pré-temporada", que parece ainda não ter terminado, dada a incapacidade de evitar novo resultado negativo, aliada a uma exibição globalmente deplorável. Aliás, se este último empate está tão fresco na memória que nem se fala de outra coisa, é importante relembrar a também deplorável exibição frente a um Copenhaga que jogou com 10 durante cerca de 30 minutos e foi capaz de arrancar um empate em pleno Estádio do Dragão. Uma tarefa que a Roma foi capaz de fazer, durante uma hora. Já o Leicester jogou com 11 durante 90 minutos. É continuar a explorar novas profundidades no fundo que atingimos no passado mês de Abril. 


Números miseráveis para uma equipa que vale tanto...

E o adepto vai ter de continuar a aguentar. Porque mesmo depois de meses de pré-temporada, as limitações nos disponíveis continuam a existir. Depoitre foi contratado tarde e ainda não se adaptou à dupla que estará sempre obrigado a fazer, se quiser jogar. Nem ele, nem o seu companheiro André Silva. Já a única alternativa a este duo é um jogador que integrou uma das primeiras vagas de dispensados. Então se existe a aposta em dois avançados, porquê a aposta em tamanha quantidade de médios? Óliver já mostrou que terá de ser sempre titular, e terá de ser acompanhado por um elemento de características defensivas que faça reduzir o seu sacrifício defensivo. André André e Herrera vão rodando, mas Rúben Neves e Sérgio Oliveira mal pisam o relvado, e João Teixeira ou Evandro nem têm paradeiro conhecido. Este excesso de opções no meio-campo contrasta com o que acontece nas laterais da defesa. Layún e Alex Telles aguentaram as faixas sem substituto, pois Maxi lesionou-se na partida de Roma, deixando Nuno Espírito Santo sem qualquer alternativa, se precisasse. Mesmo assim, estas vicissitudes do Futebol não retiram qualquer culpa ao actual Treinador do Futebol Clube do Porto por um paupérrimo exemplo de desporto que praticamos. Insistir uma ou duas vezes em algo e compreensível. Já quatro ou cinco é sinal de uma casmurrice inaceitável. Uma mescla de duas tácticas que só seria interessante numa Tese de Doutoramento, suportada por uma dinâmica de jogo arcaica e ineficiente e com intervenientes que, durante largos períodos de tempo, dão a entender que não têm bem ideia do que o que fazer naquele momento. A pressão baixa, a bola longa, o duplo ponta de lança e existência na área não são apanágio do Futebol Clube do Porto nem têm aceitação no plantel actual, que pede mais posse de bola, circulação e menos chuto para a frente, mais penetração em vez de existência na área, mais dinâmica para os virtuosos e rigor para os trabalhadores, num 4-3-3 com domínio no meio-campo, largura, tabela curta e chegada à área a tempo do último passe. Continuo a ter fé em Nuno. Apenas isso: fé. E porque ainda vamos a tempo de corrigir. Mas parte do que é visto no seu Futebol Clube do Porto também já se viu no seu Valência.

Clique AQUI para uma detalhada análise sobre o Valência de Nuno Espírito Santo.

Mais do que isto, o Futebol Clube do Porto prepara-se para admitir que falhou o fair-play financeiro. O Relatório & Contas da SAD referente à época 2015/16 terá de ser apresentado até ao fim deste mês. Guardo qualquer comentário extra para quando realmente avistar os números. A UEFA também aguarda. A situação financeira só não se revela ainda mais deficiente porque o Futebol Clube do Porto entrou na Liga dos Campeões. Se fundos significativos já foram garantidos, cobrindo uma parte do desastre que irá ser o Resultado Líquido, é natural que se ambicione a um encaixe superior com os resultados desportivos. Por agora, não fomos além do encaixe no empate com o Copenhaga, em casa.


O Futebol Clube do Porto segue mais do que frágil. Como um automóvel com mais de três décadas a passar por uma rua de paralelo antigo, danifica-se e perde peça atrás de peça (leia-se pontos) pelo caminho. E então, onde nos podemos agarrar? Na figura do (quase) eterno Presidente do Futebol Clube do Porto? Eis o que o Presidente do Futebol Clube do Porto dizia em Abril, quando descrevia a sua motivação para mais uma candidatura: 


Como adepto, também cheguei ao final da paciência. A mim não me interessa o que já ganhei. O que o Futebol Clube do Porto ganhou é passado. Está no Museu. Candidato-me porque as coisas estão mal e é preciso voltar a colocá-las como eram"

Se a sua história é recheada de sucesso e bem conhecida, e reconhecida, é também verdade que no Futebol regista-se erro atrás de erro, enquanto se submete a uma órbita de abutres e a assaltos de equipas de quatro. Com a sua liderança subimos até ao topo da Europa e do Mundo, para começar a queda-livre, bater no fundo, e escavar ainda mais. Os sócios acharam por bem reeleger Jorge Nuno Pinto da Costa até 2020. A sua aparição na zona mista do Olímpico de Roma foi apenas um rasgo de quem se queria vangloriar para as câmaras. Falar sobre o apito de Alvalade, Tondela ou do derby da Invicta, nada. Nem uma palavra. 



Em abono da verdade, a tempestade só não é perfeita pois os adeptos continuam a estar cá. E, pese embora os resultados, o Estádio do Dragão continua sem tarjas e com poucos assobios (excepto para o Héctor 'Cristo' Herrera). Porque para reclamar, é preciso estar presente, é preciso ver os jogos, é preciso consumir Futebol Clube do Porto. Quando, depois de mais uma derrota, apenas se ouvirem os consumidores de quem abusa do "Kool-Aid" actual, é sinal que muitos já partiram e que ficámos reduzidos ao bairrismo de antigamente. A pressão do adepto acumula-se a uma viagem a uma ilha que é maldita para o Futebol Clube do Porto. Seja qual for o local, não se admite que continuar a ser ultrapassados por tudo e todos, dentro e fora do relvado. Mais do que perder, o problema maior é ver que se perde sem se realmente jogar para se ganhar. E a passividade, a pasmaceira, a subserviência não pode "fazer parte do processo".


123 anos. Que venham muitos mais. #AcordaPorto


Crente. Portista.

Um abraço.


P.S.: A todos os que não apreciam a seguinte foto manipulada, nem a sua origem, as minhas sinceras desculpas. No entanto, creio ser fundamental compreender que na primeira cai toda a gente. Na segunda só cai quem quer e é fundamental aprender com os erros anteriores. A rotação foi o primeiro erro evidenciado. A casmurrice em insistir num plano de jogo sem sucesso é a mais recente.


Uma página vermelha, bem sei. Uma montagem que até me deu suores frios. Importante para reflectir.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Caro António Lourenço, obrigado pelo comentário.

      Por agora, creio que é possível definir a atitude de NES apenas como casmurra. Um dos atributos de qualquer treinador de Futebol de topo terá de ser a confiança que tem nas suas próprias ideias. Por isso, faz sentido que ainda exista esta insistência. Creio que o salto para a outra definição que sugeriu ainda não se deu, nem espero que aconteça! Ainda é possível corrigir. Ainda vamos a tempo. Ainda...

      Um abraço.

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  2. Muito bom artigo (e obrigado pelo link para a análise a outro Nuno)

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    1. Caro LAeB, obrigado pelo comentário.

      NES vai concluir na Madeira o seu 11o jogo oficial pelo Futebol Clube do Porto. Creio que já será suficiente para compreender até que ponto este "todocampismo" que apareceu no Valência se regista no Futebol Clube do Porto.

      Um abraço.

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