sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Economato: Relatório e Contas, época 15/16, 3º trimestre

As contas irão necessitar do nível de criatividade que a capa do documento demonstra para que tudo isto bata certo.

inevitável. Era algo já expectável, mas mesmo assim não alivia o quão vermelho o número é: -37.903.548,00€.

Em cima da hora, mas bem a tempo, a SAD do Futebol Clube do Porto comunicou à CMVM os resultados consolidados do 3º trimestre da época 2015/16. Por norma, os relatórios trimestrais são os que publicitam menos informação. É importante também considerar que a época, por si só, não é linear. Normalmente, os resultados do Futebol Clube do Porto não são animadores durante a temporada, sendo que apenas no fim da época são corrigidos, ora por prémios, ora por transferências de jogadores. De toda a maneira, é necessário escrutinar algumas das informações referentes ao exercício até ao momento, sendo que apenas no fim da época será possível chegar a uma conclusão definitiva.

Em primeira instância, entre outros assuntos e afirmações, são relatadas as acções colocadas em prática em torno da aquisição do Porto Canal, onde o Futebol Clube do Porto confirma que detém o controlo do canal de televisão do Clube.

Saltemos para as receitas operacionais, onde estão excluídas as receitas com transferências. Salta à vista a queda para metade no valor dos prémios da UEFA. Algo já esperado por todos, dada a fraca prestação do Futebol Clube do Porto nas provas europeias, em comparação com o ano anterior. Juntando-se a fraca prestação a nível interno, percebe-se facilmente a queda das receitas com bilheteira. Em contraste, as receitas relacionadas com o merchandising e publicidade subiram. Será o efeito Casillas? Mesmo quem está lá dentro poderá não saber ao certo.

Numa análise feitas às despesas, gostaria de saudar a SAD pela sua contenção, principalmente nos custos com pessoal, com os números a estarem a par do ano anterior.

Como maiores novidades no que toca a transacções de jogadores, o Stoke City já pagou metade de Imbula. Tanto a Doyen como a Al Hilal vão reduzindo as dívidas que têm com o Futebol Clube do Porto. Já o Fluminense (Walter) e o Marselha saldaram todas as suas dívidas. Se o empréstimo de Diego Reyes parece ter gerado uma receita, ainda por pagar pela Real Sociedad, o São Paulo não aumentou a sua dívida com o Futebol Clube do Porto por causa de Maicon. Finalmente, a Juventus continua a ter mais tempo para pagar Alex Sandro. 


As principais aquisições realizadas nos primeiros nove meses do ano.

O que espanta é mesmo as rubricas relacionadas com aquisições. Marega foi transferido por 3.800.000,00€. Momento "facepalm" do R&C. Quer em termos desportivos, quer em termos financeiros, é um desastre que só uma mente brilhante poderá desfazer a favor do Futebol Clube do Porto. Já por 70% do passe de Suk foi acordado o preço de "apenas" 1.500.000,00€. 2,5% adicionais do passe de Aboubakar foram adquiridos por 275.000,00€. A rubrica "Outros" tem uma diferença de 800.000,00€ entre Dezembro e Março, valor que julgo ser referente à contratação de José Sá. Esta presunção requer confirmação

No entanto, existe novamente um valor que me incomoda: em três meses, o Futebol Clube do Porto pagou 1.911.937,00€ só em encargos adicionais relacionados com aquisições de "passes" de jogadores. Isto por Marega (3,8M€), Suk (1,5M€), Aboubakar (0,275€) e outros (0,8M€), num total de cerca de 6.375.000,00€, o que representa um acréscimo de quase 30% o custo dos jogadores. Redirecciono-vos para uma publicação do Tribunal do Dragão que aborda exactamente esta temática: o peso e o custo das comissões e encargos adicionais. Considero o dano às nossas contas significativo.




Gostaria de terminar esta análise como comecei: pelo Resultado Líquido Consolidado, o valor a que normalmente se dá maior destaque. O número por si só não é preocupante. Permitam-me que me explique. O simples facto do Futebol Clube do Porto acumular este prejuízo nesta altura da temporada não é um problema. Como já disse, a época não é linear. O fim de temporada trará certamente muitas alterações ao plantel, tanto entradas como saídas. Por outro lado, a atenção poderia cair facilmente na flutuação dos capitais próprios, que também é negativa. A análise da flutuação das receitas, nomeadamente os prémios da UEFA, e das despesas, com foco nos custos com pessoal, terão também especial relevo para o resultado.

O problema é sim o que ele pode representar a 30 de Junho. E aí voltaria a dizer o mesmo. Não seria preocupante que o Futebol Clube do Porto acumulasse enormes prejuízos. Já para a UEFA, isso pode ser um problema! O fair-play financeiro escrutinará as contas do Futebol Clube do Porto. A previsão do orçamento era de um lucro de 1.793.000,00€. Ou seja, até ao momento, a SAD falha a sua previsão em cerca de 40.000.000,00€. Evidentemente que o orçamento do Clube previa resultados com as transacções de passes de cerca de 72.591,000,00€. Este sim será o factor que decidirá a qualidade das contas do Futebol Clube do Porto. A SAD por si só não é sustentável. Precisa sempre de vender para corrigir o excesso de despesa, quando comparada com a receita. Mas além desta correcção massiva, o valor das vendas terá também de suportar todas as aquisições que o Futebol Clube do Porto quererá (e terá) de fazer até 30 de Junho.

Tendo em conta os resultados anteriores, o Futebol Clube do Porto poderá esticar o seu prejuízo até cerca de 8.600.000,00€. Se é verdade que outro clube grande Português já falhou o fair-play financeiro, e as sanções sofridas não foram significativas, é também possível que a UEFA não faça vista grossa depois de "esperteza" demonstrada por Fernando Gomes ao evitar problemas com a UEFA, produzindo a "operação EuroAntas", que permitiu um aumento de capital de 37.500.000,00€ na época transacta. Desconheço se, por razões estatutárias, a SAD poderá recorrer novamente a este movimento. Ou seja, a EuroAntas poderá forçosamente ter de continuar na posse maioritária do Clube, não podendo assim ser utilizada em novo malabarismo contabilístico com o aumento de capital. Mesmo assim, perante o cenário, deverá ser por aí que o Futebol Clube do Porto poderá salvar as suas contas. Só teremos a resposta a 30 de Setembro.

Mas a realidade não deixa de ser preocupante. De uma forma ou de outra, seremos obrigados a algo que não queremos. Ou vender jogadores a menor preço, porque temos pressa, ou dar em definitivo o Estádio do Dragão aos accionistas da SAD que, até agora, pertencia aos sócios. Se olharmos para o futuro, a preocupação acresce. Porque estamos a utilizar os "anéis" para financiar a actividade actual. Porque vamos ficar sem "anéis" rapidamente. E porque a SAD não parece querer aprender a equilibrar as suas contas.


Entretanto, nota para a lista de intermediários publicada pela Federação Portuguesa de Futebol, cumprindo com as novas regras implementadas pela FIFA. Não havendo números específicos por cada intermediário, o Futebol Clube do Porto é líder em duas vertentes analisáveis. É o que paga mais em intermediários (11.789.500,00€) e o que pratica mais negócios, com 38. Não é possível, a partir da lista, perceber quem recebe mais ou menos. Perante os primeiros três meses do ano, o exercício foi positivo. Para os intermediários, claro! Não para o Futebol Clube do Porto...


Há quem queira o regresso de Bruno Alves. Recordo-vos que não somos o Benfica. Olhem o caso do Maxi... 


Céptico. Preocupado. Portista.


Promova o debate. Comente e deixe a sua opinião.

Um abraço.

2 comentários:

  1. Obrigado pelo post.

    Sera que estamos a pagar mais a intermediários (com contas offshore) para os jogadores pagarem menos em impostos? eg pagar 1 milhao em salario limpo seria +/- 1.5m brutos... se pagar 0.5m via conta do intermediário nas Ilhas Caymen entao so teria que pagar ao jogador 0.5m limpos / 0.75 brutos... 0.25m no bolso de alguem.
    Claro que vencimentos sao anuais mas a contas entre jogador/ agente e clube poderiam ser equilibradas na comissão da venda do jogador. eg jogador ficou 3 anos, ja recebeu 0.5 (na comissão de compra) e depois recebe mais 1m via conta offshore do agente (na comissão de venda).

    PDC sempre manda recados sobre quanto pagamos em impostos, isto pode ser maneira de desviar as atenções das finanças. Se for assim, e o clube poupa algo tudo bem mesmo que se diga mal dos gastos com intermediários. Se for so para beneficio do jogador / agente entao nao deveríamos entrar por esses negócios.

    O problema reside no facto das comissões, dos salários e pagamentos em impostos serem todos altos. Se uma linha sobe outra tera que descer no R&C final.

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  2. Caro Madeira Marvel, obrigado pelo comentário.

    Acredite que Jorge Nuno Pinto da Costa sabe bem porque pagamos tantos impostos. Nós, Portistas, de fora, apenas sabemos o número final, suspeitando porque se entrega tanto em IRS ao Estado, por exemplo. Acredite que o Estado leva mais do que o que estima no seu comentário.

    Quanto a "offshores", nem duvido que sejam utilizados para tal. Mas creio que o Futebol Clube do Porto não estará a cometer qualquer ilegalidade, também por força do escrutínio a que está sujeito.

    Mas gostaria de pegar em três palavras suas: "o clube poupa". Em intermediários, o Futebol Clube do Porto não tem histórico de poupança.

    Um abraço.

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