segunda-feira, 2 de maio de 2016

Curta sobre uma capa: Jornal Record, 02 de Maio de 2016

Raro é o dia em que o jornal Record destaca pela positiva o Futebol Clube do Porto e as suas vitórias. No entanto, o Record demorou dois dias para destacar declarações que Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto, proferiu na conta pessoal no Facebook, e que, pelo tema especifico, deve ser objecto de reflexão.


Rui Moreira traz para a actualidade o projecto "Visão 611”. Neste momento, é provável que seja um dos temas mais populares no motor de busca Google. No entanto, não é um tema esquecido, especialmente por quem escreve sobre o Futebol Clube do Porto, utilizando plataformas semelhantes ao Porta 26. Blogues mais visitados e antigos como a Reflexão Portista ou o Tribunal do Dragão já se debruçaram sobre os resultados do projecto. Mesmo assim, o tema requer introdução.

O projecto "Visão 611" teve como mentor e impulsionador Antero Henrique. O seu objectivo foi o de revolucionar, entre 2006 e 2011, a estrutura de futebol do Futebol Clube do Porto, colocando um tónico muito forte na formação e assentando as bases em três conceitos chave: rendimento, desenvolvimento e recrutamento.

A sua génese está situada em 2005, numa altura em que o Futebol Clube do Porto vivia a ressaca dos triunfos europeus em Sevilha e Gelsenkirchen. A situação financeira do clube melhorou, fruto das vendas de jogadores como Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira ou Deco. Por isso, o investimento financeiro foi, na altura, avultado, com as chegadas de Diego, Luís Fabiano, Seitaridis ou Ricardo Quaresma. No entanto, o Futebol Clube do Porto tem três treinadores em 2004/05 e não revalida o título nacional. Na temporada seguinte, chega Co Adriaanse e mais reforços de qualidade, como Lucho Gonzalez, Lisandro Lopez, Pepe ou Anderson. O campeonato é conquistado, mas a eliminação precoce das provas europeias fica no currículo (na minha primeira visita ao Estádio do Dragão vi a derrota por 2-3 contra o Artmedia, de Bratislava). Este conjunto de maus resultados contribuem para a criação do projecto "Visão 611”.

Foi alterada a forma de trabalhar em todos os escalões de menor idade e criadas valências como uma rede de scouting que ainda hoje permite detetar talentos precocemente. A revista France Football abriu os olhos para o consecutivo sucesso do Futebol Clube do Porto e decidiu convidar Antero Henrique para desvendar algumas virtudes da prospecção do Futebol Clube do Porto.

“O sucesso do F.C. Porto assenta em três pressupostos: recrutamento, desenvolvimento e rendimento. O recrutamento articula-se com o scouting, o desenvolvimento tem a ver com a formação e o rendimento com a produtividade do jogador na equipa principal”.
- Antero Henrique, 9 de Outubro de 2012, à France Football.

Declarações muito enganadores, e que pouco têm a ver com o projecto "Visão 611". É verdade que esta entrevista não teve o propósito de falar sobre esse tema. O problema é que o Futebol Clube do Porto mostra-se neste milénio como um clube que compra, desenvolve e vende mais caro. É essa a estratégia. O projeto recebe, acima de tudo, críticas pelo facto do aproveitamento de jovens para o plantel principal abaixo do que sucede nos rivais. Nomes como Vítor Baia, João Pinto, Fernando Couto, Jaime Magalhães ou Domingos Paciência são realidades irrepetíveis no passado mais recente do Futebol Clube do Porto. Rui Moreira não será o último, nem certamente o primeiro a criticar o projecto. Aliás, os resultados são tudo menos positivos.

“A maior parte dos jogadores chegam muito novos ao clube e iniciam desde logo uma formação permanente. Se, ao nível do recrutamento, privilegiamos o talento individual, ao nível da formação é a preocupação com a integração num trabalho coletivo que colocamos em primeiro lugar”.
- Antero Henrique, 9 de Outubro de 2012, à France Football.

Resultados dessa formação? De 2006 a 2011, são praticamente nulos. São vários os jogadores que ainda jovens deram nas vistas nas camadas jovens do Futebol Clube do Porto e alguns até chegaram a participar em jogos da equipa principal. Nomes como Castro, André Pinto, Rabiola, Hélder Barbosa, Rui Pedro, Ventura, Candeias, Tengarrinha, Josué, Sérgio Oliveira, Abdoulaye, Ukra, Tiago Ferreira ou Thibaut Vion fazem parte desta lista. Mas apenas dois chegam a alcançar algum protagonismo na equipa principal. Josué com Paulo Fonseca e agora Sérgio Oliveira com José Peseiro. 

Com a tal mudança radical na forma de trabalhar feita em 2006, o “fruto maduro” só deveria começar a surgir na plenitude dentro de seis, sete anos. As equipas de sub-14 e sub-13 que treinaram na Constituição seriam um dos principais traços que desenharia o futuro do Futebol Clube do Porto a médio-prazo. Passemos a fita à frente dessa geração até à temporada 2010/11. Os sub-19 do Futebol Clube do Porto limpam tudo o que viram. 1º lugar na zona norte, 1º lugar na fase de apuramento do campeão e até conquistam a “Blue Stars/FIFA Youth Cup” de 2011. Se percorrer esse plantel (link aqui) verá que nenhum desses jogadores está na equipa A. Atsu será a excepção.

A questão impõe-se: o que faltou? Qualidade? Aposta? Um pouco de cada, na minha perspectiva...

“Os emergentes, geralmente mais jovens, devem ter condições de substituir os titulares a qualquer momento. É um risco assumido e que nos permite estar preparados para os grandes orçamentos.”
- Antero Henrique, 9 de Outubro de 2012, à France Football.

Na lista de jogadores que subiram ao plantel principal, apenas dois “emergentes” se assumiram como verdadeiras opções aos titulares. Aliás, em 2012, a France Football não fala em nenhum destes nomes, destacando sim vendas milionárias recentes como Hulk, Falcão, James Rodriguez ou João Moutinho, e a génese desta reputação com Deco, Ricardo Carvalho, ou até Mário Jardel.

“Temos uma estrutura eficiente, que nos permite ter acesso rápido a informações sobre o potencial do jogador. Temos uma rede eficaz de empresários com quem trabalhamos em perfeita harmonia. (…) trabalhamos com 250 olheiros, tanto internos como externos ao clube. Realizamos vários níveis de observação, o que nos garante que cada jogador é supervisionado por várias pessoas diferentes.”
- Antero Henrique, 9 de Outubro de 2012, à France Football.

Com efeito, o destaque vai exactamente para esse facto, a capacidade de scouting do Futebol Clube do Porto. Mas não para jogadores muito jovens. As contratações dos irmãos Djim, Kayembé, Chidera, Generoso Correia, Chidozie, Fidelis ou Agu terão dedo destes 250 olheiros. A esses (ainda) não chegaram a inclusão ao longo do tempo de nomes como João Pinto, Rui Barros, Frasco, Folha, Paulinho Santos ou Capucho como treinadores, ou Semedo, Bandeirinha, Lima Pereira e André na prospecção e detecção de talentos. A mística está lá, sem dúvida. Mas quantos terão sido contratados porque têm potencial, e não para dar negocio a "Doyens", "Velas", "Energy Soccers" ou "Pesarps"???

Coincidência, ou não, não foi nenhum destes nomes que recomendou Rúben Neves. Foi sim Julen Lopetegui. Foi chamado, chegou, viu, jogou e ficou. Uma ocorrência extremamente rara no Futebol Clube do Porto. Talvez por isso se justifique o histerismo exacerbado de boa parte dos Portistas sempre que se fala de Rúben Neves. Talvez por isso se justifique o entusiasmo que a equipa B cria nos Portistas. Os Portistas estão cedentes de ver um dos "seus" a subir à equipa principal. André Silva poderá ser o próximo caso de sucesso. Rafa está mesmo na calha para isso mesmo, já que estará no plantel da próxima temporada. Mas recordo algo fundamental. Com a chegada de Lopetegui, veio também Pablo Sanz Iniesta, que passou a comandar as camadas jovens.

Mas nem o espanhol fica isento de críticas alheias. Vítor Baía também chegou a lamentar que alguns dos métodos de valorização de talentos surgidos no âmbito do "Visão 611" tenham sido abandonados durante a era Lopetegui.

Pese embora estes três nomes que surgem já depois do prazo de cinco anos do projecto "Visão 611", é possível afirmar que, como projecto de fomento das camadas jovens, foi um fracasso total. Certo é que o reforço do scouting que permitiu contratar jogadores ainda jovens, mas capazes de dar um contributo à equipa no curto-prazo, crescerem, afirmarem-se e saírem. Já formar um jovem de 12 anos, fazê-lo crescer dentro das camadas jovens e estreá-lo na equipa principal é uma tarefa que ainda não sabemos fazer como outros clubes em Portugal.

No entanto, Antero Henrique deixou algo muito bem claro, em 2013.

«Nós clubes temos é de manter a competitividade. 
Se for com jogadores portugueses, óptimo»
- Antero Henrique, 21 de Outubro de 2013, ao OJOGO.

O último título do Futebol Clube do Porto foi a Supertaça Cândido de Oliveira, a 10 de Agosto de 2013.

Céptico. Preocupado. Portista.

Promova o debate. Comente e deixe a sua opinião. 

Um abraço.

2 comentários:

  1. Excelente análise. Acompanho esta porta com frequência, parabéns pelo bom trabalho.

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    1. Caro Ruca, obrigado pelo comentário.

      Fico satisfeito com a sua leitura. Espero continuar a merecer o seu tempo.

      Um abraço.

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