quinta-feira, 10 de março de 2016

O Economato: Rúben Neves


Há quem diga que, quando foi chamado por Lopetegui, Antero Henrique terá dito:
"Confesso que nem sei bem quem é..."

Como Portistas, são tempos curiosos os que vivemos. É talvez o momento mais tenso que sou capaz de recordar. Tenra idade, é certo. Mas não esqueço a minha constante inquietação perante o nosso presente, não só pela instabilidade que existe entre os adeptos, mas também pelas constantes questões levantadas acerca da instituição Futebol Clube do Porto.

Se o “joguete fácil e cúmplice de empresários” será sempre uma caracterização muito arriscada dos actuais líderes do Futebol Clube do Porto, o “nepotismo” e os “milionários” poderão ter uma justificação mais fácil. Senão vejamos.

Rúben Neves, 18 anos, médio, internacional sub-21 Português, foi vice-campeão europeu de sub-21 em 2015, na República Checa, é produto das escolas do Futebol Clube do Porto, instituição onde é jogador de Futebol desde os 8 anos. Com Julen Lopetegui privado de Fernando (vendido), Mikel (lesionado) e Thomas Podstawski (na selecção), Rúben Neves foi chamado em 2014 pelo treinador espanhol para integrar a pré-epoca do Futebol Clube do Porto. Conquistou lugar de destaque no plantel Portista, onde se mantem. No dia 20 de Outubro de 2015, frente ao Maccabi Tel Aviv, tornou-se o mais jovem capitão do Futebol Clube do Porto em competições da UEFA. Mais do que uma promessa, é, neste momento, uma confirmação.

No dia da reeleição dos órgãos sociais da SAD do Futebol Clube do Porto, e com a adição de dois novos membros que contrasta com a proposta feita antes da assembleia, o local de partilha de informação sujeita a um menor grau de transparência decidiu divulgar o contrato entre o Futebol Clube do Porto, SAD (clube) e José Caldeira (agente) pelos serviços de intermediário de Rúben Neves, com data de Outubro de 2014. Rúben Neves tinha, na altura, 17 anos de idade. Comecemos pelo início do documento, e parafraseando:


(A) O agente prestou serviços ao clube relacionados com a negociação do clube com o Rúben Neves (jogador), no sentido de assinar um novo contrato com o clube. Esse contrato é válido até junho de 2017.

Sabe-se que, já como maior de idade, Rúben Neves renovou contrato com o Futebol Clube do Porto até junho de 2019. No entanto, as informações sobre esse contrato ainda não são públicas. No entanto, esta primeira renovação tem cláusulas, pagamentos e condicionantes muito interessantes. Senão vejamos.

É acordado que:

1. O agente prestou os seguintes serviços ao clube:
(a) Aconselhar o clube na estratégia de negociação;
(b) Actuar como intermediário pelo clube para comunicar os termos contratuais propostos ao jogador; e
(c) Convencer o jogador a aceitar os termos do clube em vez de perseguir outras alternativas que estejam em aberto para o jogador.

5 administradores (na altura, agora são mais), 4 deles executivos, TODOS com enorme experiência no Futebol, sem contar com todos os restantes profissionais que os rodeiam, precisam de recorrer a José Caldeira para aconselhamento na negociação de contrato com um jovem que fez toda a sua formação no clube. A SAD necessita também de um intermediário (um agente) para negociar por eles. Sim, a SAD, que certamente será a parte menos habituada a este tipo de negociações. Ou talvez não, dado que até o clube necessita de assessoria para esta negociação. Outra cláusula que é habitual, e sempre muito curiosa, é o acto de “convencer” o jogador a assinar. Por um lado, tendo em conta o resto, faz todo o sentido. Tanto “trabalho” como intermediário e depois o jogador não renova? Essa obrigação é natural. No entanto, concluindo todos estes serviços com sucesso, existe sempre uma contrapartida. E que contrapartida. Ora vejamos.

2.1. Em consideração pelos serviços prestados pelo agente, o clube pagará ao agente, através da PRESTIGE SPORTS MANAGEMENT LIMITED uma soma de 225.000,00 €.

2.2. Em adição, o clube pagará mais 100.000,00 € se e quando o jogador participar em 20 jogos oficiais pela equipa A numa só temporada (pelo menos 45 minutos no campeonato português, na taça de Portugal, na supertaça de Portugal e em competições da UEFA).

Pormenor importante: a taça da liga não está incluída nesta lista. Prossigamos.

2.3. As partes também concordam em, caso o jogador cumpra o objectivo anterior (participação em 20 jogos oficiais) e completar mais 10 jogos oficiais na mesma temporada, pagar ao agente mais 50.000,00 €.

2.4. As partes também concordam em, caso o jogador cumpra os dois objectivos anterior (participação em 30 jogos oficiais) e completar mais 10 jogos oficiais na mesma temporada, pagar ao agente mais 50.000,00 €.

A renovação de Rúben Neves até junho de 2019 foi anunciada em setembro de 2015 através do Dragões Diário. Não pelo seu acontecimento, mas sim para contrariar informações (desactualizadas, aparentemente) que Rúben Neves tinha contrato até junho de 2017. Sem se saber muito bem em que dia aconteceu, vamos partir de um pressuposto em que Rúben Neves acrescentou mais duas temporadas ao seu contrato quanto completou 18 anos, mas que todas estas cláusulas se mantêm. Por outro lado, vamos também admitir que o contrato tem efeitos retroactivos e que os jogos oficiais onde Rúben Neves já tinha participado contem para a contabilidade de cláusulas. Acrescento que, segundo a minha interpretação do documento, os jogos da taça da liga não contam para este contrato.

Assim, Rúben Neves participou durante pelo menos 45 minutos em 19 partidas, sendo desta três na taça da liga, que, segundo a escrita do documento, não contam para a contabilidade. Portanto 16 partidas. Isto num total de 37 partidas oficiais e 1789 minutos de utilização global na temporada 14/15. Portanto, José Caldeira terá de esperar por outra temporada para receber valores relacionados com a utilização do jogador. Mas auferir 225.000,00 € só pela renovação não é nada mau. Pensai onde andaria Rúben Neves se não fosse a intervenção de José Caldeira a convencê-lo a assinar novo contrato com o Futebol Clube do Porto.


Rúben Neves inaugurou o marcador na primeira jornada da época 14/15, no Estádio do Dragão.

Já na temporada 15/16 a história é bem diferente. Rúben Neves soma, até ao momento, 20 partidas com participação em pelo menos 45 minutos, sendo 18 elegíveis para essa contabilidade (9 no Campeonato, 2 na Taça de Portugal, 5 na Liga dos Campeões e 2 na Liga Europa). Por isso, e mantendo-se as cláusulas presentes no contracto, José Caldeira poderá, até ao fim da temporada, embolsar mais 100.000,00€. Mas, calma, não é tudo.

2.5. Finalmente, em consideração pelos serviços prestados pelo agente ao clube, no caso de o clube transferir o jogador, o clube pagará ao agente 5% do valor da transferência líquida que receber.

2.6. No caso de ser o agente a apresentar ao clube a proposta aceite pelo clube que transfira o jogador, o clube passará a pagar 10% do valor da transferência.

É desconhecida a actual cláusula de rescisão de Rúben Neves. O último valor conhecido é de 40.000.000,00€. Portanto, José Caldeira poderá potencialmente auferir mais 4.000.000,00€ pela prestação dos seus serviços. Algo mais complicado nesta altura, dado que Jorge Mendes é o actual empresário de Rúben Neves.

4. A decisão de qualquer desacordo entre as partes deverá ser resolvido pelos órgãos arbitrários competentes da FIFA dentro do regulamento da FIFA.

Pois, a FIFA também “recomenda” que a participação de agente em passes de jogadores não passe dos 3%. Mas para isso já não é chamada. Apenas uma recomendação, infelizmente…

Três notas finais que visam o esclarecimento dos leitores.

Primeiro, a definição de “nepotismo”, segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa: “substantivo masculino. 1. Valimento de que gozavam junto de certos papas os seus sobrinhos ou parentes. 2. [Por extensão] Favoritivismo excessivo dado a parentes ou amigos por pessoa bem colocada = AFILHADISMO, AMIGUISMO”.

Em segundo lugar, a definição de “milionário”, segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa: “adjectivo e substantivo masculino. 1. Que ou aquele que possui milhões. 2. Pessoa muito rica.”

Em terceiro, identificar sucintamente José Caldeira. É agente da PRESTIGE SPORTS MANAGEMENT LIMITED e irmão de Adelino Caldeira. E caso apresente uma proposta de 40.000.000,00€ pela transferência de Rúben Neves, terá direito a 4.000.000,00€. Se não for José Caldeira a apresentar essa proposta, o tecto máximo para o agente será de 2.000.000,00€. Que potencialmente serão para José Caldeira, em vez de entrar nos cofres do clube. Esta cenário tem como pressuposto uma cláusula de rescisão de 40.000.000,00€.


O reconhecimento da UEFA pelo marco conquistado por Rúben Neves.

Rúben Neves é jogador do Futebol Clube do Porto e espero que continue por largos anos. Terá sempre o maior respeito do Porta 26, esperando que possa tornar-se num símbolo do clube.

Promova o debate. Comente e deixe a sua opinião.

Um abraço.

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