quarta-feira, 30 de março de 2016

O Economato: Casemiro

Casemiro foi um dos jogadores mais utilizados da época 2014/15. Imagem original aqui

Ao contrário do que é normal, a motivação pela qual dou uso a esta rúbrica advém da leitura de determinados documentos oficiosos publicados de forma a chegarem ao público, de forma normal, ou extraordinária. Desta vez não é assim, já que o Record de hoje noticia que o Football Leaks disponibilizou um conjunto de documentos oficiais que envolvem o Futebol Clube do Porto, a Doyen Sports, a Vela Management Ltd, e a Energy Soccer. Recuemos um pouco a fita para compreender todo o processo.

Julen Lopetegui chega ao Futebol Clube do Porto em Maio de 2014, a duas jornadas do fim dessa temporada, mas apenas assume o comando do seu plantel após o seu término. É dada “carta branca” ao Treinador espanhol para procurar os reforços mais indicados. Um deles é Illarramendi, médio-defensivo espanhol que chegara há 12 meses ao Real Madrid e que Lopetegui gostaria de ver como o substituto de Fernando, entretanto transferido para o Manchester City. Na impossibilidade de conceder o desejo ao treinador espanhol, é proposta uma alternativa: Casemiro. O também médio-defensivo do Real Madrid procurava um clube onde conseguisse ter mais do que os 652 minutos da temporada anterior, e o Futebol Clube do Porto mostrou-se como a solução indicada para o jogador. Quase 3300 minutos em todas as competições.

A temporada de 2014/2015 de Casemiro no Futebol Clube do Porto
Segundo o Record, que se baseia em documentos cedidos pelo Football Leaks, o Futebol Clube do Porto pagou 1.200.000,00€ pelo empréstimo de uma temporada, ficando com a opção de o adquirir, de forma definitiva, se accionasse a cláusula até 30 de maio, e onde era obrigado a pagar mais 13.800.000,00€. Surgem aqui as primeiras contradições com as notícias publicadas sobre a sua possível transferência em definitivo.

Dezembro de 2014. CM sempre com a melhor informação (ironia, claro.) em primeiro-mão. Adiante!

Ora, segundo o Record, que se baseia em documentos cedidos pelo Football Leaks, o Futebol Clube do Porto comunica, através de carta, a 27 de Maio de 2015, a activação da cláusula de transferência definitiva. Uma possibilidade que vinha sendo avançada tanto em Portugal, como em Espanha, e que, em certa medida, vinha ao encontro com a importância que o Treinador do Futebol Clube do Porto Julen Lopetegui vinha dando ao jogador brasileiro. Por outro lado, se é verdade que era importância ao jogador, o próprio Real Madrid fazia intenção de recuperar o jogador, sendo por isso impossível negociar com um clube espanhol um valor inferior à cláusula estabelecida.

(Pausa para pura especulação: a meu ver, foi um "bluff" completo. E vamos perceber o porquê.)

No entanto, o mesmo acordo estabelecido entre o Real Madrid e o Futebol Clube do Porto sobre Casemiro tinha uma "contra-cláusula". Se é verdade que o Futebol Clube do Porto poderia adquirir o jogador brasileiro pelo valor estabelecido no contrato, o Real Madrid poderia bloquear essa mesma transferência, pagando ao Futebol Clube do Porto 7.500.000,00€, valor que foi explicitado, e de forma correcta, por vários meios de comunicação social, mas que o exacerbavam no caso de Casemiro fosse transferido de imediato.

Confirma-se a veracidade da primeira informação.
Quanto à segunda, interessa pouco. Casemiro é jogador do Real Madrid. 

Não são raros os exemplos de jogadores com cláusulas de recompra em Espanha. Morata será talvez o caso mais flagrante na realidade actual. De toda a maneira, estava ainda para ver um caso como este, em que se pagava bom dinheiro para impedir uma venda em definitivo de um jogador emprestado. No entanto, não é caso único no Real Madrid. Na mesma altura, o Real impediu que o RCD Espanyol accionasse a compra em definitivo de Lucas Vásquez, pagando também ao clube de Barcelona pelo regresso do jogador. Segundo o Record, que se baseia em documentos cedidos pelo Football Leaks, passados dois dias, o respectivo valor da cláusula estava entregue ao Futebol Clube do Porto. Simples, não? Nem por isso... Não foi SÓ o Futebol Clube do Porto que beneficiou com este negócio.

Ao mesmo tempo, a Vela Management Ltd., pertencente ao "universo" Doyen, com sede a cerca de um quilómetro da sua empresa-mãe, segundo documentos disponibilizados pelo Football Leaks ao Record, recebeu 1.260.000,00€ do Futebol Clube do Porto por este desfecho. O Record não explica especificamente porquê nem a razão pela qual este negócio foi assinado. No entanto, por "serviços de gestão e acompanhamento desportivo do atleta", a Energy Sports cobrou 700.000,00€ à Vela. O problema é que este "serviço" foi assinado em Janeiro de 2015, cinco meses depois do jogador já estar no Futebol Clube do Porto. 200.000,00€ pelos serviços mais 500.000,00€ pelo desfecho, ou seja, pelo bloqueio do Real Madrid à opção de compra.

Curioso... Parece que até os familiares necessitam de intermediários...

P.S.: O texto foi preparado assim a 29 de Março de 2016, até que a cautela preveniu-me de o publicar. Agora os documentos saíram para o público poder analisar é possível comentá-los. Considero correcta a interpretação do Record, e, por isso, preferi não alterar o texto. Mas hoje, 30 de Março de 2016, o Football Leaks vai mais longe, reservando uma publicação só e apenas sobre Alexandre Pinto da Costa e um esquema de financiamento com a Vela pelo meio, e fundamentada por uma vasta documentação e comunicações entre as partes. Se até blogs já receberam a crítica do Dragões Diário, espero que agora o Futebol Clube do Porto não se esconda e venha a público reagir de forma clara a esta acusação. Entretanto, se o departamento de planeamento financeiro & controlo de gestão parece não ter mãos a medir na gestão dos activos e da tesouraria, o departamento de "scouting" pode tirar férias, já que a Vela trata disso. 

Casemiro deve ser considerado como um negócio muito positivo do ponto de vista financeiro para o Futebol Clube do Porto. Aliás, o Real Madrid é sempre uma excelente instituição para qualquer negócio, dado que olha pouco a recursos utilizados para atingir o fim desejado. Foi bom para o Futebol Clube do Porto. Foi também excelente para outras partes, incluindo familiares de membros da administração da SAD do Futebol Clube do Porto, que, ao envolverem-se no negócio, enriqueceram ainda mais, prevenindo que o clube conseguisse um pleno encaixe financeiro. O fair-play financeiro continua à perna e o Estádio do Dragão, que devia ser do Clube e dos seus associados, é o principal favorito a pagar a factura.

Crente. Portista.

Promova o debate. Comente e deixe a sua opinião.


Um abraço.

Sem comentários:

Enviar um comentário