terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Economato: Otávio



Otávio Edmilson da Silva Monteiro, 21 anos, médio-atacante brasileiro, contratado ao Internacional no primeiro dia de Setembro de 2014, mesmo em cima do fim do mercado de transferências. Assinou na altura um contrato válido por cinco temporadas, e com uma cláusula de rescisão de 50 milhões de €uros. Ainda não se estreou pela equipa principal, mas jogou pela equipa B, antes de ser emprestado, em Janeiro de 2015, ao Vitória de Guimarães, onde estará, pelo menos, até ao fim da temporada 2015/16.


Dia 21 foi ocasião para, uma vez mais através da habitual fonte, certos documentos surgirem em público que deveriam ficar guardados em arquivos fechados e servidores protegidos, e que merecem reflexão. Rapidamente vários meios de comunicação social Portugueses também acederam a esses documentos, reiterando que o Futebol Clube do Porto tinha contratado “gratuitamente” Otávio. Até no Brasil essa conclusão, a meu ver precipitada, já é notícia.
Nunca foi aposta de Lopetegui, mas jogou pela equipa B antes de rumar a Guimarães

Não tendo o puzzle completo, analisemos, desta vez em Português, o que está escrito no contrato assinado entre o Internacional, o Futebol Clube do Porto e Otávio, com data de 1 de Setembro de 2014, e de seu nome


“INSTRUMENTO PARTICULAR DE CESSÃO DEFINITIVA DE DIREITOS FEDERATIVOS”


Este título deveria ser a primeira pista de que as conclusões de vários meios de comunicação social (ou apenas um, e o resto nem se dignou em verificar e fez copiar e colar) são, no mínimo, dúbias. Prossigamos com os detalhes mais importantes do texto.


“Considerando que:

(…)

c) os direitos económicos do ATLETA são detidos pelas seguintes entidades:

i. Coimbra Esporte Clube Ltda – 65%

ii. G.E: Assessoria Esportiva Ltda. – 20%

iii. Otávio Bezerra Monteiro Junior – 15%

d) Em caso de futura transferência do ATLETA, do CESSIONÁRIO para um terceiro clube, o CESSIONÁRIO obriga-se a distribuir as respectivas receitas às entidades descrita no supra considerando c).”


Para que fique claro, o cessionário é o Futebol Clube do Porto, o cedente o Internacional, e o atleta o Otávio. Repare-se na clara diferença entre aquilo que são os direitos federativos, que correspondem ao direito de inscrever o jogador por um determinado clube numa determinada competição, e os direitos económicos, que como qualquer jogador no Futebol moderno, estão espalhados por diversas entidades. É então necessária uma breve apresentação do Coimbra Esporte Clube. É um clube da segunda divisão do campeonato mineiro, detido pelo Banco BMG, e que, sem nunca terem jogado pelo clube, já deteve participações em passes de mais 100 jogadores, como Marquinhos, Oscar ou até Bernard, que esteve perto de assinar pelo Futebol Clube do Porto. Ou seja, trata-se apenas de uma entidade que o Banco BMG usa para negociar futebolistas. Não é caso único no Brasil, mas é o mais escandaloso. Dificilmente qualquer órgão oficial do Futebol irá por mão neste tipo de entidades, normalmente pequenas e de difícil identificação de qualquer estrutura.


Logo, o ponto 1.2. da cláusula primeira, perde grande parte do seu peso. Vejamos:


“O CEDENTE, como legítimo titular dos direitos federativos (vínculo esportivo) do ATLETA, com a anuência deste, neste ato e na melhor forma de direto, cede ao CESSIONÁRIO, de forma definitiva e gratuita, a totalidade destes direitos, observando o disposto na cláusula segunda infra, referente a ajuste da transferência do ATLETA”


Se, de facto, o direito de inscrição do jogador estava do lado do Internacional, naquele momento, este clube já não tinha qualquer direito económico sobre o jogador. Provavelmente porque já os tinha cedido. Se é verdade que o Futebol Clube do Porto não teve de pagar nada ao Internacional, isto não significa que não tenha pago para que o jogador ingressasse no clube. O Relatório e Contas referente ao 1º trimestre da época 2014/15 é esclarecedor. Na explicação da rúbrica “Aquisições” pode-se ler que o Futebol Clube do Porto adquiriu 33% do passe de Otávio por 2,5 Milhões de €uros ao Coimbra Esporte Clube Ltda. No Relatório e Contas Consolidado da época, o Futebol Clube do Porto revela que pagou mais 400 mil €uros em encargos adicionais com o jogador, mas que ainda não tinha pago nenhuma parte do passe. Até ao primeiro trimestre da presente época, o Futebol Clube do Porto declarava continuar a deter 33% do passe de Otávio.

Em conclusão, é, a meu ver, MENTIRA que Otávio chegou ao Futebol Clube do Porto de forma gratuita. Além das sempre caras despesas de representação, o Futebol Clube do Porto ainda tem no seu passivo “corrente” uma dívida para pagar pela sua aquisição. Para os meios de comunicação social da capital, foi apenas mais um dia no trabalho constante na tentativa de incomodar o Futebol Clube do Porto. Para os que se clamam imparciais e verdadeiros, um pouco mais de atenção, por favor.

 As qualidades técnicas de Otávio despertaram a atenção do Futebol Clube do Porto

Do ponto de vista desportivo, está, neste momento, a fazer uma excelente temporada em Guimarães, demonstrando a sua qualidade e aclamando por uma integração no plantel principal do Futebol Clube do Porto na próxima temporada. É, neste aspecto, um empréstimo que prova ser uma boa aposta para o jogador e, por conseguinte, para o clube. Deseja-se que o Treinador do Futebol Clube do Porto dê uma oportunidade a Otávio para mostrar o que vale, agora de Azul e Branco.  


Promova o debate. Comente e deixa a sua opinião.


Um abraço.

Errata: No R&C do 1º semestre da época 15/16, está escrito que o Futebol Clube do Porto tem uma participação de 32,5% nos direitos económicos de Otávio. Para onde foi este 0,5%, ainda está por explicar.

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