quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Economato: Brahimi

Imagem Sky Sports

Yacine Brahimi, 26 anos, internacional argelino, médio-atacante contratado ao Granada que se destaca pelo seu desempenho individual durante o Campeonato do Mundo de 2014, no Brasil.

Este desempenho despertou o interesse de vários clubes para a sua contratação, embora tenha sido o Futebol Clube do Porto a ganhar a corrida e fechar a sua contratação, garantindo a totalidade do seu passe por 6,5M€. É possível consultar o comunicado à CMVM aqui, com data de 22 de Julho. Tudo certamente já estaria acordado entre as partes. Não só entre o Granada e o Futebol Clube do Porto. Mas também entre o Futebol Clube do Porto e a Doyen. Parafraseando os documentos redigidos em inglês que surgem a público durante o passado dia 2 de Fevereiro,  mas sem desviar o seu sentido, estes devem ser agora objecto de reflexão.

A 23 de Julho, um dia depois depois da sua contratação, é assinado um contrato com a Doyen em que se aborda a divisão dos direitos económicos. Sem conhecer a integralidade do texto, viremos o foco para a “emenda” desse mesmo contrato, que é assinada a dia 24 de Julho, e que aborda, entre outros, os seguintes pontos:

- O Futebol Clube do Porto é o dono dos direitos desportivos de Yacine Brahimi.

Ok. Até aqui, tudo bem.

- A Doyen detém 50% dos direitos económicos de Brahimi, conforme acordado no contrato de divisão dos direitos económicos entre o Futebol Clube do Porto e Doyen no dia 23 de Julho.

Curioso. Se, de facto, se suspeitava que o Futebol Clube do Porto teria a colaboração da Doyen neste negócio, então a Doyen não tinha 80% dos direitos económicos do Brahimi? Ora vejam aqui o comunicado do Futebol Clube do Porto à CMVM com a mesma data onde se aborda essa mesma cedência. 

- Brahimi e o Futebol Clube do Porto acordaram em renovar o vínculo contratual entre as partes, com o Futebol Clube do Porto a aumentar o rendimento líquido do jogador para €1.500.000, incluindo salário base, bónus por objectivos e outras possíveis retribuições como exploração dos direitos de imagem.

Sim, havia necessidade de rapidamente que renovar com um jogador que tinha assinado há dois dias. Outra opção interessante é a de fixar o valor anual líquido, mas com tudo incluído: salário base, bonús e outros rendimentos.

- Considerando esta renovação, o Futebol Clube do Porto e a Doyen decidem ajustar o contrato anterior com esta adenda.


Bem, nessa mesma emenda, cá vêm os ajustes quase impercetíveis:

- O Futebol Clube do Porto e a Doyen acordam em que o adicional de custos incorridos com a renovação do contrato de Yacine Brahimi deverão ser deduzidos de qualquer pagamento à Doyen referente à sua participação nos direitos económicos do jogador.

Portanto, o Futebol Clube do Porto suporta os respectivos custos, que depois iria deduzir aos 50% que teria de pagar à Doyen no caso de uma venda total dos direitos desportivos. Claro que nesta análise falta o contrato em si, que, até ao momento, não veio a público. Esses esclarecimentos poderão ser em parte apontados à recompra de 30% do passe de Brahimi pelo Futebol Clube do Porto por 3,8M€ em Junho de 2015, tal como comunicado à CMVM.

De Julho de 2014 saltemos para Setembro de 2015. Uma temporada sem qualquer título, com uma participação bem sucedida na Liga dos Campeões. Brahimi salta para a boca do mundo com o hat-trick frente ao BATE, para a prova milionária. É o seu único momento de brilhantismo durante a temporada. No entanto, existe outra entidade que vê em Brahimi uma possibilidade de negócio: a Vela Management Ltd, que se define como um “intermediário”.

Leia-se o contrato assinado entre o Futebol Clube do Porto e a VELA. Se já era curioso o facto da Doyen e da VELA terem sedes, em Malta, separadas por menos de um quilómetro, mais ressalta à vista o facto de o responsável por ambas as firmas ser o mesmo.

- O intermediário concorda em prestar serviço ao Futebol Clube do Porto para a negociação com Brahimi para a renovação de contrato.

- O Futebol Clube do Porto concorda em pagar ao intermediário por esses serviços referidos na cláusula 2 do contrato.

Primeiro a cláusula 1, depois a 2.

- O intermediário compromete-se a prestar ao clube os seguintes serviços: aconselhamento do clube na estratégia de negociação, actuar como intermediário pelo clube na comunicação de propostas contratuais ao jogador, e convencer o jogar a aceitar os termos do clube em vez de procurar outras alternativas abertas ao jogador.

Espero que não tenho apontado uma pistola ao homem…

- Pelos serviços prestados pelo intermediário ao Futebol Clube do Porto para a assinatura do novo contrato, o intermediário recebe € 500.000, pagos em duas partes iguais, com a primeira a 31 de Janeiro de 2016 e a segunda a 31 de Julho de 2016.

- O acordo perdura durante todo o mês de Setembro de 2015, e pode ser terminado antes de data se o jogador assinar um novo contrato com o clube ou por mútuo acordo.


Na declaração do Futebol Clube do Porto sobre a matéria que veio a público no passado dia 2 de Fevereiro, e que data do dia 24 de Setembro de 2015, dia em que é enviada à CMVM uma nota no qual se afirma que Brahimi renovou contrato com o Futebol Clube do Porto, pode ser que o clube:

- Dá o direto à Vela de receber 5% da diferente entre o valor líquido da transferência recebido pelo Futebol Clube do Porto e a soma de todos os custos incorridos com a aquisição do jogador.

Ou seja, em vez de apenas pagar 500m€ por intermediar, cede-se mais 5% do passe. Infelizmente, isto não se fica por aqui.

- Além disso, se a Vela intermediar uma transferência futura de Brahimi, a Vela terá direito a mais 5% desse lucro.

O negócio está garantido pela Vela, que será a intermediária de uma futura transferência de Brahimi. Mas há mais.

- Para esclarecer qualquer dúvida sobre a distribuição dos direitos económicos, esta está definida no acordo do dia 23 de Julho de 2014 entre o Futebol Clube do Porto e a Doyen.

Ou seja, então confirma-se que, desde do dia 23 de Julho de 2014 até ao dia 24 de Setembro de 2015 a Doyen detinha 50% do passe de Brahimi, e não 80%, pese embora a comunicação da recompra apenas tenha acontecido em Junho de 2015.


Como conclusão apenas gostaria de apontar uma suspeita e dois factos fundamentais sobre análise. Primeiro, a suspeita de que, se não fosse da Doyen, o Brahimi nunca aterrava em Portugal por 6,5M€, principalmente tendo em conta os interessados na sua contratação. Valor demasiado baixo para a concorrência, como Tottenham ou Everton. Depois, dois factos: a falta de transparência neste tipo de negócios e o intermediário da transferência de Brahimi no fim da temporada. Por partes. Faz parte do contrato celebrado entre o Futebol Clube do Porto e a Vela a 01 de Setembro de 2015 a obrigatoriedade de sigilo do negócio por ambas as partes. Não creio que seja necessário qualquer tipo de adenda nesse sentido, a não ser que alguma das partes queira esconder algo. Depois, pela capacidade de persuasão da Vela, e pela possibilidade de obter 10% da mais-valia realidade pelo jogador, será obviamente a escolha do Futebol Clube do Porto nessa transferência. Isto porque o representante da Doyen é o mesmo da Vela nos vários contratos assinados com o Futebol Clube do Porto. Do lado da SAD, a assinatura é feita pelo Presidente do Futebol Clube do Porto Jorge Nuno Pinto da Costa e pelo actual Administrador para a área financeira Fernando Gomes. Aquando da assinatura final a confirmar a transferência de Yacine Brahimi, considerando tudo como está, o Futebol Clube do Porto não irá ver metade do valor total.

Com a quantidade de intervenientes, para quê gastar tanto dinheiro com a SAD??? Não precisamos, fazem tudo por nós. Mas com custos elevadíssimos.

Promova o debate. Comente e deixa a sua opinião.

Um abraço.

4 comentários:

  1. Tem os documentos que suportam este texto? Pode enviá-los pf para lapisazulebranco@gmail.com ?

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    1. Caro Lápis Azul e Branco, obrigado pelo comentário.

      Os documentos surgiram a público na página onde estamos habituados a ver ser exposta diversa documentação sobre contratos, transferências e acordos de vários clubes, e que foi e é citada por vários meios de comunicação social: footballleaks.

      Não tenho a certeza se esses documentos ainda estarão disponíveis. Apenas os consultei pois foram disponibilizados de forma livre, e foi essa a base para esta publicação.

      Um abraço.

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  2. Optimo artigo, e o proprio blog fez-me ficar fa. Vim ca dar uma vista de olhos devido ao cometario deixado no blog Porta19 e tive que fazer bookmark a este. Quanto a historia por tras do artigo nos ja sabemos o que e que a casa gasta. O Porto vai a passos de gigante tornando-se no novo Sporting e a casa um dia vira abaixo, ficaremos anos sem ganhar nada relevante e quando tudo bater no chao com muito estrondo, poucos (muito poucos) conhecerao ordem de prisao, chegaremos ao fim do ciclo e a renovacao do clube se iniciara com alguem de alma pura. Na vida tudo e ciclico mas o que doi mais (leia-se doyen mais) e a impotencia que se sente perante a verdade podre dos factos.

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    1. Caro Pudget, obrigado pelo comentário.

      Nas publicações Porta 26 é feito um esforço no sentido de fomentar o já existente debate em torno da realidade do Futebol Clube do Porto, sendo o seu principal objectivo, mas não único. E, por isso, é sempre gratificante quando Portistas tem prazer em seguir. Um sincero obrigado.

      Quanto ao negócio, e considerando que ainda faltam peças no puzzle, é, infelizmente, mais uma situação em que o Futebol Clube do Porto irá ser o parente pobre. Como disse, creio que o clube irá receber menos de metade do valor da transferência final, pese embora possa estar ainda em aberto a recompra do seu passe. De toda a maneira fica clara a conivência da actual administração em distribuir os rendimentos das transferências por terceiros, em detrimento do próprio clube.

      Um abraço.

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